Sobre pessoas, ruas e fotografia...

De forma mais popular ou romantizada, a prática da fotografia de rua pode ser considerada como uma “dança”, cujo dançarino (i.e. fotógrafo) baila de forma imaginária – incessantemente ou metodicamente -  com estranhos pela cidade. Ou como uma “caçada”, cujo alvo dos disparos – alucinados ou calculados – do caçador-fotógrafo, se dirigem aos elementos presentes na urbs. Cada vez que me deparava com metáforas como estas, relacionadas ao ato de fotografar estranhos na rua, tentava me encaixar em um dos dois “modelos”. Com o passar do tempo, percebi pela práxis que o ato de fotografar não só estranhos, mas elementos pertencentes a cidade, este enorme salão de dança ou floresta, vai além das definições citadas acima.

Rogerio Akiti Dezem, Quioto 2014

Apesar de não ser a única, gosto muito da definição do fotógrafo de rua como um flâneur, expressão oriunda do universo literário francês em meados do século XIX, representativa do indivíduo que transita sozinho pela cidade, imerso na multidão, verdadeira “reserva de energia elétrica” segundo Charles Baudelaire. O flâneur é antes de tudo um observador, um apaixonado expectador do drama humano, daquilo que é transitório, efêmero. No universo literário, o produto dessas flaneries pelo espaço urbano, podem ser lidos nas obras de Gustave Flaubert e Honoré Balzac entre outros escritores. Na fotografia da primeira metade do século XX, outros  franceses se destacaram como grandes flâneurs, o pioneiro Eugene Atget, o poético Robert  Doisneau  e o mestre Henri Cartier-Bresson. Além da inspiradora e sedutora cidade luz, Paris, o que aproximava esses escritores e fotógrafos? A necessidade de olhar o espaço urbano (i.e. cidade) e traduzí-lo em palavras ou imagens. Essa arte do olhar, muito mais intuitiva do que técnica/mecânica e a capacidade de traduzir o espaço urbano em palavras e imagens que serão eternizadas, infelizmente é para pouquíssimos... 

A fotografia de rua  é muito mais uma provocação do que apenas uma simples representação de fatos, situações ou banalidades cotidianas captadas pelas lentes de uma câmera (não importa qual). Provocar o olhar do outro através do seu olhar, registrado em um frame é uma verdadeira arte. E na minha opinião, após um longo caminho percorrido historicamente, este é um dos principais objetivos da fotografia de rua e  “candid”. No entanto se o objetivo do fotógrafo de rua permanece o mesmo nos dias de hoje, o modo de fotografar vem mudando desde a década de 1970 e, principalmente,  nos últimos 10-15 anos. Explico: o auto-focus e a digitalização do ato de fotografar (i.e. deslocamento do ato mecânico) foram dando lugar ao “frenesi do snapshoting”, onde o número (quase ilimitado) de disparos dá lugar ao fator sorte na tentativa de captar algo/alguém, subvertendo alguns dos paradigmas do ato de se fotografar pelas ruas de uma cidade: observar, mirar, focar e disparar. Certamente Cartier-Bresson  não seria fotógrafo de rua se vivesse hoje...

Após essa breve introdução, vamos ao que interessa primeiramente: o espaço urbano. Palco dos acontencimentos registrados pelo flâneur com sua máquina (i.e. fotógrafo de rua), a cidade é par excellence o espaço de criação, percepção e tensão entre o fotógrafo e os elementos que o cercam. Esquadrinhar  esta “ paisagem com extremos voluptosos”  como definiu a escritora Susan Sontag,  é um exercício que deve ser feito, primeiro apenas com o olhar e depois com a câmera. Desse modo conhecer a cidade onde  fotografamos é um elemento importante para que se possa cada vez mais aprimorar o olhar de fotógrafo de rua, seja ele despretensioso ou na busca de algum tema ou elemento. É claro que pode-se conseguir imagens de rua interessantes e até mesmo obras-primas (??!) em qualquer lugar, como em um simples passeio pela feira-livre ao lado de sua casa ou passando algumas horas flanando em um lugar que você nunca esteve. No entanto, pela minha experiência, conhecer bem o espaço  onde você prática sua fotografia de rua  torna o ato de fotografar pelas ruas um ato menos complexo, mais poético, objetivo e consistente.

Dentre as várias questões que surgem ao praticarmos a fotografia de rua, algumas delas seriam:  Como a fotografia representa a experiência de viver na cidade? Todas as cidades são iguais para se praticar fotografia de rua? Fotografar pelas ruas de megalópoles como São Paulo seria o mesmo que fotografar em Nova Iorque, Tóquio ou em Osasco? 

A cidade surgiu como uma das metáforas da modernidade em fins do século XIX, e hoje  representa toda a banalidade pós- moderna do início do século XXI. Como retratá-la? Da mesma forma que HCB, Brassai, Doisneau entre outras referências clássicas das décadas de 1930-1950? Ou as metrópoles pós-modernas nos possibilitam outros olhares, sensações, dimensões? Muitas perguntas. Respostas? Deixo para você, caro leitor, refletir.

O historiador Michel De Certeau trabalha com o conceito de “cidade metafórica”, definindo o espaço urbano muito mais do que uma coleção de edifícios belamente fotografados, indo além, para ele a cidade se configura como uma rede de relações, sistemas e poder.


Rogerio Akiti Dezem, Osaka 2014

Após tecer alguns comentários sobre o espaço urbano, universo onde nós, fotógrafos de rua/urbanos, gastamos nossas solas de calçados, perdemos nossa noção de tempo e disparamos - furtivamente, ou não – nossos shutters na busca de capturar aquilo que não nos pertence.   Gostaria de falar um pouco do elemento, que na minha opinião, é a raison d’étre da fotografia de rua e candid: o ser humano. 

No início da década de 1930, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) em um dos seus clássicos ensaios (“A Short History of Photography”), publicado originalmente em alemão (1931), discorria sobre o impacto de um dos principais instrumentos da modernidade, a Fotografia. Benjamin  neste ensaio,  apresenta a maneira pela qual muitos teóricos e críticos de arte na Alemanha,  na época,  consideravam o ato de fotografar  - menos uma arte do que um ato mecânico – citando um interessante trecho do periódico Leipzig City Advertiser:

“(...) Man is created in the image of God and God’s image cannot be captured by any human machine. Only the divine artist, divinely inspired, may be allowed, in a moment of solemnity, at the higher call of this genius, to dare to reproduce the divine human features, but never by means of a mechanical aid!”

Enquanto estas linhas em alemão ecoavam como um dogma ferido pela nascente arte da Fotografia, um jovem francês, ainda anônimo, cujas iniciais HCB se tornariam icônicas, desafiava (inconscientemente?) o trecho citado acima. Bresson ao se deparar com a imagem monocromática de  adolescentes africanos nus, correndo em direção as ondas do lago Tanganica feita pelo experiente fotógrafo húngaro Martin Munkacsi (1896-1963), publicada em 1931 na revista Photographies, teve uma epifania:

“De repente entendi que a fotografia podia fixar a eternidade no instante. Essa foi a única foto que me influenciou. Nessa imagem há uma intensidade, uma espontaneidade, uma alegria de viver, uma maravilha tão grande que me deslumbra até hoje. A perfeição da forma, a percepção da vida, uma vibração sem igual...Pensei: bom Deus, podemos fazer isso com uma máquina...Senti como que um pontapé na bunda: vamos, vai!”

Um ano depois,  em 1932,  HCB comprou sua primeira Leica e divinamente inspirado passou a buscar seus “instantes decisivos”. O resto é história...

Ao iniciar essa segunda parte, associando dois importantes personagens de relevância ímpar para elevar a Fotografia à condição de ARTE moderna (Benjamin e Cartier-Bresson), gostaria de lançar a minha provocação: É possível fazer fotografia de rua sem o elemento humano? Ou seja, sem “a percepção da vida”, parafraseando Bresson? Serei direto na minha opinião: Penso que não. Sem o elemento humano, não há propriamente street photography, mas qualquer outra modalidade fotográfica, como paisagem urbana ou arquitetura/urbanismo ou arte de rua, por exemplo.

E já respondendo um questionamento inicial,  sobre se todas as cidades seriam iguais para se praticar fotografia de rua, respondo: Não, não são. As cidades são diferentes, por que os elementos humanos presentes nelas são diferentes. A relação entre o espaço urbano e o elemento humano, produz uma complexa organicidade que alimenta a imaginação e  desafia as habilidades dos fotógrafos de rua em todo o mundo. 

Na minha concepção, o ser humano no universo urbano é metaforicamente uma reserva de energia, difusa, caótica, orgânica e que ao ser “captada” em seu ato corriqueiro, banal de forma espontânea pelas lentes do fotógrafo, se transforma, passando a ter outro(s) significado(s). A sedução do elemento humano visto através do viewfinder,  produz uma sensação única, que pode ser triste, alegre, cativante, intrigante, mas nunca neutra ou estéril. Daí a mágica em se fotografar estranhos pelas ruas. Cabe ao fotógrafo de rua mostrar a relação entre o ser humano e a urbs, não importa onde ou quando.


Rogerio Akiti Dezem, Osaka 2015

Fotografar em cidades asiáticas, algumas extremamente populosas como Tóquio, Seoul, Manila, Bangkok ou Hong Kong,  ou “nem tanto”, como Istambul, Ho Chi Min ou Yangon para mim é uma experiência intensa. É como se um universo de  feições, línguas, cheiros (lembrei-me agora do aforismo do fotógrafo de rua norte-americano Bruce Gilden), costumes diferentes emoldurados por um espaço urbano ora decadente, ora vislumbrante se abrisse ao seu redor. Esse conjunto, ao meu ver, se torna a essência da fotografia de rua e a Ásia nos brinda com o diferente, com suas sinfonias urbanas singulares. Por exemplo, cito a própria sensação de “insegurança” que se dilui ao fotografar por estas bandas, sensação deveras contrastante quando fotografo pelas ruas de Sampa, infelizmente.

Resumindo: a fotografia de rua deve ter uma história, uma narrativa (im)possível, às vezes lúdica, ela deve provocar nosso olhar e impregnar o nosso inconsciente...

 

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Rogerio Akiti Dezem

Rogério é natural de Osasco (SP).
É professor universitário no Japão e "Photowalker". 

Site fotográfico: Zenfolio | AkitiDezem Photowalker