A cidade e a fotografia (de rua) como uma forma de representar o olhar japonês


Quioto (Saiin) by AkitiDezem2013 

“No address”: a cidade e a fotografia (de rua) como uma forma de representar o olhar japonês. (Parte 1) 

Introdução

Em 1889 um  jovem britânico aspirante a escritor,  Rudyard Kipling (1865-1936), em sua coluna  “Cartas do Japão” para um periódico indiano, escrevia: “If you buy nothing else in Japan...you must buy photographs (...)”(HIGHT, 2011:66). Kipling fazia alusão às belas -  e consideradas  exóticas - fotografias no formato de cartões de visita,  conhecidas como Yokohama shashin (em port. “Fotos feitas em Yokohama”) Confeccionadas por estúdios fotográficos na cidade portuária de Yokohama a partir de imagens de vários locais no Japão, eram um dos principais souvenirs adquiridos por turistas estrangeiros, alguns ávidos colecionadores deste tipo de iconografia. Dessa maneira na Europa e nos Estados Unidos surgiram os “colecionadores do Japão”, nação que mesmo distante geograficamente, se fazia presente no imaginário a partir de objetos tradicionais made in Japan ou de belas imagens através de cartões-de- visita, cartões-postais e a patir de 1880 pelos álbuns fotográficos, muitos feitos sob encomenda. Hoje, passados mais de cem anos, a afirmação  ainda pode soar como verídica. Se apenas mudarmos o verbo “comprar”  por  “fotografar” na segunda afirmação, o conselho do recém chegado Kipling se tornaria atual: “Se você não comprar nada no Japão, fotografe, então”.

                Em minha mente, a ideia de fotografar o universo nipônico ao invés de “apenas” escrever sobre minhas experiências por aqui, começou a tomar forma em meados de 2011, tornando-se uma quase obsessão nos últimos anos. Uma amiga antropóloga apaixonada pelas coisas do Japão foi quem - em um dos nossos emails trocados ao longo dos últimos anos - levantou a questão após ver minhas primeiras tentativas pictóricas de retratar o cotidiano daqui: “Talvez o seu olhar fotográfico sobre sua vivência no Japão seja mais interessante do que escrever sobre o mesmo. Você deveria tentar...”. Sem grandes experiências no universo da Fotografia e munido de uma charmosa SLR Pentax SV preta e uma Super-Takumar 50mm f/1.4 (uma lente quase mitológica!), saí pelas ruas japonesas objetivando retratar pessoas no ambiente urbano nipônico e foi quando percebi que em Osaka as ruas “não têm nome”... Explico.

Após uma breve visita ao Japão em 1970, o filósofo francês Roland Barthes (1915-1980), publicou o ensaio  Empire of Signs, cujo título original  é  L’Empire des signes. Na obra Barthes apresenta não um Japão real, mas um Japão fictício, simbólico a partir das observações muito mais sensoriais vivenciadas em sua breve estadia em Tóquio. O autor francês com um olhar semiótico,  discorre  no capítulo “No Address” sobre a sua impressão de que as ruas japonesas não teriam nome como na Europa, por exemplo. Essa constatação nos confronta com o ato baudelariano de flanar pelas ruas parisienses, onde as ruas TÊM nome, possibilitando a construção de referenciais e nos situar, a partir – principalmente – dos nomes dos locais e/ou das ruas. Sob a nossa ótica ocidental, essa é uma das principais referências quando saímos para fotografar em algum lugar específico. Por exemplo, quando um paulistano cita o nome da rua “7 de abril”, quase automaticamente fazemos a associação com o centro velho de São Paulo e as lojas de equipamento fotográfico. Ação quase impensável para um não-japonês no universo urbano nipônico, cujas referências urbanas partem – entre outros elementos espaciais - de nomes dos locais, algumas denominações são muito antigas e às vezes já perderam o seu sentido original. Antes de entrar em pânico e pensar “não irei mais fotografar pelas ruas (sem nome) japonesas”, o próprio Barthes apresenta uma saída:

This city can be known only by an activity of an ethnographic kind: you must orient yourself in is not by book, by address, but by walking, by sight, by habit, by experience; here every discovery is intense and fragile, it can repeated or recovered only by memory of trace it has left in you (…) (BARTHES, 1983:36).

Antes de continuar a minha narrativa, gostaria de esclarecer que desde o início, o meu objetivo ao fotografar o Japão - e as ruas da Ásia - não é aquele associado ao que chamo de um olhar do final do século XIX, quase etnográfico, cujo foco são os elementos culturais e estéticos nipônicos (ou asiáticos), associados a locais históricos como templos, santuários, paisagens, geishas, maikos, darumas, ou seja, um Japão mais tradicional e com um gostinho de passado. Meu negócio é andar pelas ruas e tentar captar de forma instantânea – muitas vezes por meio de  snapshots - a maneira como o elemento humano dialoga com o universo urbano japonês, geralmente cinzento, às vezes colorido, labirintitico e densamente povoado. Algo menos documental, cerebral e técnico e mais intuitivo, sempre tentando retratar o que considero ao mesmo tempo banal e efêmero em um mesmo frame.

Voltando. Já estava morando por aqui há mais de um ano quando comecei a perambular e me perder pela ruas de Osaka, Kobe e Quioto (onde as ruas TÊM nome!). As cidades japonesas,  grosso modo, seguem um mesmo padrão urbano, é claro que o centro de Nagoia é diferente do centro de  Osaka,  por exemplo. No entanto a disposição das facilidades urbanas como estações de trem, postos policiais, lojas, arcadas comerciais (jap. shôtengai), pachinkos, escolas, restaurantes, locais para fumantes (cada vez mais raros...) é muito parecida, principalmente nos subúrbios. Essa similaridade urbana para um não fotógrafo de rua pode parecer “chata e cansativa”, uma verdadeira mesmice para o olhar. No entanto, cada espaço tem uma organicidade própria, geralmente invisível para o neófito e normal para um japonês. O olhar do fotógrafo urbano se encontraria no meio termo entre o do turista, cuja ânsia pelo “novo”- mesmo que já fotografado mil vezes - seria o seu guia e o habitante do lugar, cuja memória sentimental constrói uma narrativa a partir de vivências. É necessário em um primeiro momento, observar, anotar e fotografar, depois voltar e fotografar novamente e assim por diante. E aqui vai a minha provocação: então, o ato de fotografar pessoas (desconhecidas) pelas ruas da cidade não seria etnográfico na essência?

Esse ritual de fazer “parte do lugar”, mas de forma (quase) invisível, talvez seja um dos elementos essenciais para se conseguir uma foto de rua no mínimo, interessante. Não sou muito afeito a invisibilidade, prefiro o estilo (Garry) Winogrand de fotografar pelas ruas, caminhando entre as pessoas com a câmera na altura dos olhos, mirando e disparando. Os japoneses geralmente não ligam para este tipo de atitude, pois nunca tive problemas. É claro que em alguns  pontos da cidade essa maneira de abordagem funciona melhor, como por exemplo as estações de trem - meus lugares favoritos por aqui - onde se pode captar momentos interessantes, harmonizando a caótica massa humana ao sóbrio espaço urbano. Captar  a poesia instantânea desses movimentos apressados, mas silenciosos com as lentes de uma câmera é um desafio e por isso, um prazer. As estações de trem, as  ruas estreitas, as pessoas alienadas, as crianças brincando inocentemente, enfim as imagens de um Japão real ou simbólico já  imortalizadas pelos grandes mestres da fotografia nipônica como Eikoh Hosoe, Shomei Tomatsu, Haruo Tomiyama, Ihei Kimura, Takuma Nakahira e  Daido Moriyama entre outras feras. 

 
Quioto (Kawaramachi) by AkitiDezem 2013

1.       1. A Fotografia e os japoneses

“Japan is the place where our ‘extreme’ consciousness is awakened”
Nobuyoshi Araki – fotógrafo japonês

Uma pergunta frequente que sempre me fazem quando converso com não-japoneses sobre Fotografia/fotografar no Japão é a seguinte: Por que os japoneses gostam tanto de fotografar em conjunto? É fato que uma das atribuições ao ato de fotografar está associada à ideia de preservação da  memória. No caso japonês, segundo a antropóloga Célia Sakurai, o ato (quase) pavloviano de fotografar “tudo” e em grupo, estaria associado não só a captar o momento, mas também à questões socio-culturais. Questões oriundas da noção de grupo prevalecer sobre a individualidade e do desejo em se registrar, muitas vezes na forma de snapshot, o momento para mostrar à família e amigos que você esteve lá. Neste contexto a fotografia assume o papel de memória/evidência.

Sobre a relação dos japoneses com a fotografia gostaria de ir um pouco mais além. É notório o tempo escasso que os mesmos têm para o lazer e viajar. Em média o trabalhador japonês têm direito a cerca de dezenove dias de férias, mas utiliza apenas metade disto. Esse hábito está arraigado a uma cultura do trabalho que foi se delineando após a era Meiji (1868-1912) e,consolidou-se, no pós-segunda guerra. O ato de fotografar está associado simbolicamente ao lazer, descanso e não só à preservação de memória, ou seja, o “ato em si” é mais importante do que o produto final (e.g. imagem capturada). Aliado a isso, o Japão é a grande referência em tecnologia fotográfica com suas Nikons, Canons, Sonys, Olympus entre outras marcas, o país construiu uma sólida reputação no campo da fotografia a partir do final da década de 1950 com o lançamento da lendária SLR Nikon F(1959) entre outras inovações e não apenas “copiando o que os alemães faziam”. A necessidade de se consolidar um mercado interno consumidor consistente fez com que a indústria fotográfica japonesa criasse uma série de estratégias como o lançamento de revistas especializadas em fotografia (Asahi Camera, Nihon Camera entre outras), concursos locais e nacionais de fotografia, editoras especializadas em publicar livros e exibições. Isso reforçou e disseminou o hábito de fotografar em muitos japoneses, e principalmente, “consumir” fotografia (e.g. equipamento fotográfico). Portanto uma possível resposta a pergunta inicial está associada não só a elementos culturais como também a questões mercadológicas.

Podemos dizer que a Fotografia chegou ao Japão em 1848 (via Ueno Shunojo um comerciante de Nagasaki), acontecimento muito mais simbólico do que prático, pois foram necessários alguns anos para que se dominasse a técnica da daguerreotipia e se produzisse a primeira “fotografia” no Japão: o retrato do daymio Shimazu Nariakira de Satsuma feita por Ichiki Shiro (1828-1903) e seus assistentes (BENNETT, 2006: 35) em 1857. Na mesma época os primeiros daguerreótipos com imagens do Japão produzidos pelo fotógrafo militar Eliphalet M. Brown Jr.(1816-1886), presente nas expedições do Comodoro Mathew C. Perry ao Japão (1853-54) eram divulgados nos Estados Unidos (HIGHT, 2011: 54).

As décadas de 1860-70 marcaram o domínio e o aprimoramento da técnica fotográfica no país, como também o surgimento dos primeiros estúdios fotográficos, a maioria criado por estrangeiros na cidade portuária de Yokohama. Neste contexto destacou-se, entre outros,  a figura do fotógrafo italiano Felice Beato (ca.1833- ca.1909) que viveu no Japão entre 1863-1877 e se tornou o pioneiro e uma das grandes referências da fotografia no arquipélago japonês. A partir daí serão produzidas as colecionáveis Yokohama Shashin, representações de um olhar estrangeiro sobre o Japão que associada a literatura de viagem do período, construiu uma imagem de um país “ideal” aos olhos ocidentais, idealizado como uma verdadeira fairyland na linguagem da época. Narrativas e concepções estéticas para serem admiradas e consumidas no período e que hoje transformaram-se em valiosa documentação iconográfica que:

(...), na medida em que identificadas e analisadas objetiva e sistematicamente a partir de metodologias adequadas, se constituirão em fontes insubstituíveis  para a reconstituição histórica dos cenários, das memórias de vida (individuais e coletivas), de fatos do passado centenário como do mais recente. (KOSSOY, 2009:133)


Osaka (Senrichuo) by AkitiDezem  2014

Na transição entre os séculos XIX e XX  a Fotografia a partir de estúdios, foto-clubes e revistas se disseminava em cidades como Tóquio e Osaka. Representações perfeitas da “modernidade”, a nascente relação entre a Fotografia e a Cidade se tornaria um dos espelhos da maneira de representar a dinâmica entre o espaço urbano e o elemento humano japonês. Nas palavras do historiador Michel De Certeau a cidade é uma metáfora psicológica, ou seja:

(...) much more than a collection of buildings beautifully photographed; it is a network of relationships, systems and power.” (TORMEY, 2013:XX) 

Naquele momento interessava ao olhar estrangeiro captar um Japão que deixava de existir, com um (falso) saudosismo imagético. Aos olhos de muitos fotógrafos e escritores estrangeiros o (novo) espaço urbano com ares europeus interessava menos do que algumas áreas do interior ainda inexplorado e...exótico per se.  Por outro lado o “nascente” olhar fotográfico japonês além de alimentar-se de correntes ocidentais como o pictorialismo (em jap. Geijutsu shashin), mais contemplativo e artístico,  buscava o seu próprio caminho. Um olhar construído a partir de ambivalências entre o tradicional (japonês) e o moderno (europeu), produzindo desde o início uma psicologia sui generis da/sobre a cidade, reflexo das  transformações na paisagem urbana japonesa colocadas em prática desde meados da era Meiji. Na segunda parte deste artigo  falarei mais detalhadamente sobre amaneira de “olhar à japonesa”.

 

Bibliografia citada:

Barthes. Roland. Empire of Signs. Translated by Richard Howard. New York, Hill and Young, 1983.

Bennett, Terry., Photography in Japan (1853-1912). Tokyo, Rutland, VT, and Singapore; Turtle Publishing, 2006.

Hight, Eleanor M.. Capturing Japan in Nineteenth-Century. New England Photography Collections. Surrey; Ashgate, 2011.

Kossoy, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica.4º edição revisada. São Paulo, Ateliê Editorial, 2009

Tormey, Jane. Cities and Photography. London and New York, Routledge, 2013.

 

 

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Rogerio Akiti Dezem

Rogério é natural de Osasco (SP). 
É professor universitário no Japão e "Photowalker". 

Site fotográfico: Zenfolio | AkitiDezem Photowalker