A fotografia como Terapia

Acredito que a fotografia pode e deve estar presente no dia-a-dia, como trabalho, como expressão artística e como registro, e ainda como oportunidade para o relacionamento humano, para conhecimento e auto-conhecimento.

Estou envolvido com a fotografia desde 1997 e de forma muito mais intensa desde 2007. Nestes últimos anos, especialmente depois que comecei a dar aulas de fotografia (2008), comecei a perceber que a fotografia muitas vezes tem um forte efeito terapêutico, ou seja, uma melhora na qualidade de vida e até em relação à saúde. Esse efeito terapêutico se manifesta de diferentes formas, dependendo da pessoa, de sua vida e de como ela se envolve com esta arte-técnica de escrever com a luz, fotografia.

Olhando a realidade sob nova ótica. Foto por Yuri Bittar Olhando a realidade sob nova ótica. Foto por Yuri Bittar, 2014

Essa pode ser uma das explicações para o enorme número de fotógrafos amadores que tem surgido, o sucesso das saídas fotográficas e o grande fluxo de fotos disponibilizadas e discutidas na internet, ou seja, a fotografia tem se mostrado como uma terapia, mas não formal, não um programa, mas uma atividade que agrega qualidade de vida.

Vou então fazer uma proposta, acredito que essa terapia pode acontecer de três formas, momento de lazer, oportunidade para relacionamento humano e busca de auto-conhecimento.

As fotógrafas vão! E você? Por Yuri Bittar, 2015

1. Momento de lazer

Para muitas pessoas o dia-a-dia é corrido e estressante, sem momentos dedicados a si mesmo. Dedicam-se ao trabalho, à família e quando muito aos estudos. Claro que trabalho, família e estudos são, ou deveriam ser, coisas boas e da maior importância. Mas é preciso também ter momentos dedicados a si mesmo, momentos de se fazer algo que não precisa ser feito, mas que é prazeroso, e para cada um essa atividade varia, e é o que se chama de “hobby”, ou seja, uma atividade que não é trabalho, mas é levada a sério, à qual se dedica tempo, esforço e até dinheiro, simplesmente pela paixão. 

A fotografia cada vez mais permite às pessoas terem esse momento de lazer, praticar a criatividade, registrar momentos, se aprofundar em temas. Isso leva ao desenvolvimento do olho crítico, da criatividade. Desenvolver a criatividade e o senso de imagem beneficiam não só as fotografias produzidas, mas a vida toda da pessoa, pois ela exercita o "músculo" de achar novas ideias, desenvolver soluções, encontrar novos arranjos. 

Novas Ideias - por Yuri Bittar, 2011

2. Oportunidade para relacionamento humano

A fotografia também tem aproximado pessoas. Seja nos sites de compartilhamento de imagens, blogs, ou em encontros e saídas fotográficas, uma paixão em comum permite o surgimento de novas amizades, andanças pela cidade, observação do olhar do outro. Com a fotografia como assunto todos nós, especialmente os mais tímidos, podemos melhorar nosso relacionamento com outros.

Achando Graça - por Yuri Bittar, 2013

Conhecer lugares é outro benefício da fotografia, a curiosidade disparada pela busca de fotos cada vez melhores nos leva a uma busca por novos lugares, sejam distantes, quando fazemos viagens, ou loo alí, quando resolvemos entrar numa rua perto de casa que por acaso nunca entramos. 

Quando o fotógrafo encontra as fotos. Por Yuri Bittar, 2015

3. Busca de auto-conhecimento

Aqui creio que está o maior potencial da fotografia como terapia: possibilitar a reflexão, ou seja, o olhar para dentro de si.

Sair por ai fotografando, parando para ver, prestando atenção no lugar em que você vive, já seria um ótimo exercício de auto-conhecimento, mas em alguns casos é até mais que isso.  Ao se concentrar para observar o mundo também olhamos para dentro de nós mesmos e nos vemos melhor. O exercício de buscar nossa própria linguagem e a seleção de momentos e imagens que fazemos, nos levam a entender melhor como pensamos e como vemos. Sim, pois nem todos costumam parar para prestar atenção e perceber como pensam e como veem. Não temos o habito de nos conhecer e buscar descobrir uma forma pessoal de comunicação. 

Parar e perceber que se gosta de fotografia já é um primeiro passo, é perceber um gosto, algo que lhe dá prazer. Mas não basta isso. É preciso realizar a experiência, seja pelo prazer de realizar uma atividade querida, seja pela realização de uma experiência verdadeira. Como defende Larosa (1), se deixar ser campo para um acontecimento, se deixar ser tocado e até levado e assim ser verdadeiramente alterado, só assim podemos viver a experiência interpelativa e nos deixar mudar, para melhor.

O que vai na minha cabeça? - por Yuri Bittar, 2010

Cada vez que paramos para fotografar, se fazemos isso com o coração, somos afetados, ou seja, isto atinge nosso lado afetivo, o lado dos sentimentos, da emoção, o lado que nos permite um real contato com outras pessoas, com o mundo e até com Deus. E sim, digo com o coração, pois creio que devemos ir onde o coração nos manda, como em “Vá onde seu coração mandar” (2), onde uma avó revê sua vida e percebe que tomou o rumo errado, que não foi o rumo do coração. Mas como no livro sempre há tempo para retomarmos esse rumo, como nos explica o professor Dante Marcello Claramonte Gallian (3), numa belíssima reflexão sobre a santidade, ou seja, o caminho ideal para a vida. 

Muitas pessoas usam a fotografia para se expressar, quando muitas vezes de outras formas não dão conta de extravasar, passar uma mensagem, até para si mesmos. A fotografia digital tornou o auto-retrato mais presente, e as vezes essa é uma forma de mostrar sentimentos difíceis de expressarem em palavras. É uma forma de se reconhecer, de se entender. 

Enquadrado. Por Yuri Bittar, 2012

Concluindo, mas jamais encerrando

Se perceber como capaz de criar arte, agradar a si mesmo e aos outros, se apropriar do mundo-imagem, passar a ser agente da experiência diárias, criar novos campos de apreensão do mundo, dar vazão às suas dores e anseios, tudo isso eu tenho observado em tantos fotógrafos, que só posso ter certeza desse efeito da fotografia como terapia. Este é um artigo livre, sem um forte embasamento em alguma pesquisa quantitativa, mas nossa experiência é concreta e ampla, e percebemos esses acontecimentos de forma indiscutível. Seja para se divertir, fazer amigos, se expressar ou se conhecer melhor, a fotografia é um instrumento terapêutico com grande potencial! 

FotoCulturaParaTodos

Acreditando em tudo isso criamos o Projeto Fotoculturaparatodos, aulas de fotografia para crianças e jovens em tratamento de câncer, aproveite para conhecer! 

Referências:

1. Larrosa, Bondia, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista. Brasileira de Educação. Campinas: Autores Associados, nº 19. p. 20-28. Jan./Abr. 2002

2. Tamaro, Susanna. Vá Aonde Seu Coração Mandar. Rocco, __________, 1995

3. Gallian, Dante Marcello Claramonte. Dá, pois, a teu servo um coração que escuta... http://labhum.blogspot.com/2009/12/da-pois-teu-servo-um-coracao-que-escuta.html

E continuem fotografando! 

Yuri Bittar

 

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Yuri Bittar

Yuri Bittar é designer, fotógrafo e historiador. Atua como designer gráfico, e desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano e que contribuam para a melhora da qualidade de vida.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Site: http://www.yuribittar.com