A Aventura de um Fotógrafo

"Para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa"?

Lendo o texto de Ítalo Calvino “A Aventura de um Fotógrafo” não posso deixar de pensar em nossa relação com a fotografia. 

(Clélia, em um curso Fotocultura em 2013)

Antonino, a personagem principal, não era fotógrafo, não fotografava e nunca pensou nisso, mas um dia acabou tirando uma foto a pedido dos amigos, depois outra... e assim começou a pegar gosto por aquilo. 

Um dia pensou: “O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo.” E então pensou, tudo deveria ser fotografado? 

“É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida.”

E surgiu uma ideia, ele começou a pensar que a fotografia espontânea, a "natural", paradoxalmente era a mais falsa, e que as fotos posadas é que eram mais reais. Como isso? 

“O gosto pela foto espontânea natural colhida ao vivo mata a espontaneidade, afasta o presente. A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito...”

Imaginou que as fotos “à moda antiga”, mais presas às convenções sociais, eram mais verdadeiras em sua falsidade. Por causa de uma seção de fotos, onde buscava, em um estúdio, com câmeras antigas de fole, capturar a essência de Bice, ele se apaixonou por ela, ou assim pensou. Bice veio morar com ele, que passou a fotografa-la em todos os momentos do dia. 

“Havia muitas fotografias possíveis de Bice e muitas Bices impossíveis de fotografar, mas aquilo que ele buscava era a fotografia única, que contivesse tanto umas quanto as outras.”

Antonino começou a perceber que a fotografia poderia ser uma fuga da realidade. Pensou se estaria tentando “dar um corpo à lembrança para que esta substituísse o presente diante de seus olhos?” Mas mesmo assim continuou nesse caminho.

Bice não suportou e o abandonou. Ele continuou fotografando a ausência de Bice, as coisas do apartamento, recortes de jornal, num caminho que aparentemente o distanciou totalmente da realidade.

Será que, como Antonino, buscamos, com a fotografia, dar corpo a lembranças imaginadas, que nos tirem do tempo presente? Será a fotografia uma fuga? São apenas pensamentos, inquietações. Não tenho a resposta. 

(texto revisado, originalmente publicado em 2012)

Referência:

 

CALVINO, Ítalo. A Aventura de um Fotógrafo. In: Os Amores Difíceis. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 51-64. (leia o conto aqui: https://dobrasvisuais.files.wordpress.com/2010/11/a-aventura-de-um-fotografo.pdf )

Yuri Bittar

 

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Yuri Bittar

Yuri Bittar é designer, fotógrafo e historiador. Atua como designer gráfico, e desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano e que contribuam para a melhora da qualidade de vida.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Site: http://www.yuribittar.com